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A CRISE DO MODELO DE EDUCAÇÃO BRASILEIRO

 O jornal O Globo publicou ontem, dia 17/07/2017, uma ótima entrevista realizada pela jornalista Josy Fischberg com Marc Prensky, importante educador norte-americano (clique aqui para acessar a entrevista). Ao ler sua entrevista, independentemente de concordar com todas as suas ideias, percebemos como ainda estamos distantes de uma necessária revolução educacional.

 

Seja no ensino fundamental e médio, como também no superior, o que se percebe, na maioria das instituições de ensino, é uma metodologia tradicional, focada em disciplinas teóricas clássicas, onde o aluno ainda decora fórmulas, datas, leis, artigos, fatos históricos, etc., com pouquíssimo grau reflexivo e crítico. Além disso, a dificuldade em utilizar as novas ferramentas tecnológicas na educação no Brasil salta os olhos. O que se percebe simplesmente é uma adaptação de algumas parcas tecnologias na mesma metodologia arcaica e ultrapassada. O professor não apenas escreve no quadro (negro ou branco), agora ele utiliza data show com PowerPoint, usa-se o ensino por EAD, mas com pouca atratividade para o aluno, ou seja, a tecnologia aplicada na velha metodologia educacional.

 

Continuamos (e me incluo pois também sou professor e também cometo os mesmos erros aqui mencionados) avessos a mudança. Continuamos ensinando o aluno a decorar ao invés de ensina-lo a fazer o que o mercado e a sociedade esperam dele, que é resolver problemas, propor soluções, agir de forma criativa e inovadora. Ainda aferimos o aluno pela sua capacidade de reproduzir um conhecimento reproduzido pelo professor em sala de aula que ele decorou de algum livro. Nas escolas, a melhor ainda é aquela que “aprova” nos vestibulares e “ENADEs” da vida.

 

O que deve causar ainda maior temor aos educadores é o fato de que a tecnologia, que poderia ser uma ferramenta essencial para o desenvolvimento educacional, acaba servir simplesmente para tornar os alunos ainda mais bitolados, com pouquíssimo grau reflexivo. A tecnologia deve ser vista como aliada e não inimiga. Nós educadores devemos trazer a tecnologia para dentro da sala de aula e usa-la a nosso favor, não necessariamente substituindo por completo as leituras necessárias ou os métodos expositivos, mas complementando e buscando motivar o aluno.

 

Se mencionarmos então os problemas mais básicos estruturais do ensino público, como falta de estrutura mínima de salas de aula e banheiros, insegurança, salários atrasos, dentre outros, o problema educacional se torna ainda mais crítico em solo brasileiro, e as ideias de Marc Prensky parecem ainda mais distantes. Mas não existe outra alternativa, temos que pensar em melhorias básicas em nosso sistema educacional sem deixarmos de discutir as novas propostas pedagógicas e educacionais. Não é tarefa fácil, mas absolutamente essencial.

 

Como já ensinava Nietzsche em pleno século XVIII, não pode ser a ciência quem irá valorar a vida, mas sim a arte. Aplicando o pensamento nietzschiano na educação contemporânea, seria colocar em mesmo grau de importância com disciplinas mais clássicas, a música, as artes plásticas, o esporte, a filosofia, a sociologia, etc., aliado ao empreendedorismo, liderança, gestão de projetos, mediação de conflitos, negociação, robótica, programação e outras áreas tecnológicas. Precisamos ter um ensino coletivo pensando no individual, e não de forma “homogênea e pasteurizada” como é feito hoje, onde a responsabilidade fica com o aluno de se “enquadrar” no sistema pedagógico utilizado.

 

Aplicando o pensamento de Marc Prensky no ensino do Direito, provavelmente a área mais tradicional do ensino superior, percebemos que ainda temos, em sua grande maioria, cursos superiores com pouca diferença ao praticado no século XIX. Não existe uma busca pelo conhecimento linear, mas sim com disciplinas ministradas com quase nenhuma interação entre elas, como se fossem conhecimentos estanques e incomunicáveis. A existência de disciplinas ditas “propedêuticas” nos currículos, servem apenas para “constar”, pois ao final do curso superior, a maioria esmagadora dos bacharéis em Direito não é capaz de identificar a aplicabilidade e necessidade de autores não juristas como Foucault, Kant, Weber, Heidegger, dentre outros, para pensarem o Direito de forma crítica.

 

As críticas de Lenio Streck à ciência do Direito atual, onde cada vez menos se verificam livros reflexivos em detrimento de uma proliferação de manuais e livros esquematizados, confirmam o que este post pretendeu mencionar, ainda que de forma bastante insipiente. Não precisamos apenas de reformas políticas e econômicas no Brasil, mas principalmente educacionais, para que o Brasil possa sonhar em sair de seu desenvolvimento tardio. Algumas das propostas da minirreforma educacional brasileira, aprovada recentemente, parecem interessantes, se forem aplicadas in totum em todas as escolas, principalmente as públicas, mas ainda esquecem que, nenhuma mudança substancial no sistema educacional terá seu início com propostas mirabolantes, mas com a valorização dos professores, desde os da pré-escola até aqueles do ensino superior, para que assim, tais metodologias inovadoras possam enfim desembarcar em solo brasileiro. O professor precisa se sentir valorizado, entender sua importância essencial dentre de uma política de Estado, onde melhores salários, melhores condições de trabalho, segurança para realizar seu trabalho são condições básicas para uma reforma educacional brasileira.

 

Precisamos então pensar sobre as novas pedagogias, como a de Marc Prensky, sem, contudo, esquecer que ainda precisamos melhorar as condições básicas do sistema educacional brasileira. Precisamos fazer nossos alunos pensarem, refletirem e não apenas seguirem. A crítica de Heidegger aos tempos modernos ainda se faz presente e precisamos agir como Nietzsche falou, não buscando seguidores, mas formando pensadores. Tarefa difícil, pensar em questões sofisticadas em termos pedagógicos quando ainda não conseguimos nem o básico no sistema educacional brasileiro, mas essa é uma tarefa necessária para se almejar um futuro melhor para o Brasil em médio e longo prazo.

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