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Por que ainda não nos livramos do racismo?

September 15, 2017

 

“No one is born hating another person because of the color of his skin or his background or his religion” (Barack Obama)

 

Recentemente, o ex presidente Barack Obama postou comentários no Twitter sobre os acontecimentos em Charlottesville mencionando que nenhuma pessoa nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, pelo seu passado ou pela sua religião, parafraseando Nelson Mandela.

 

Os acontecimentos em Charlottesville mostraram o quanto uma parcela significativa da população norte-americana ainda é arraigada a ideias concebidas a séculos atrás na existência de “raças” superiores simplesmente pela pigmentação da pele.

 

Tais ideias, que para provavelmente a maior parte da população norte-americana e mundial soam como absolutamente incoerentes e insustentáveis cientificamente e filosoficamente, são repetidas por alguns grupos neofascistas, neonazistas e de supremacia branca como verdadeiros mantras.

 

Sobre tais ideias Charles Taylor (ano 2000 p. 242) chega a afirmar que a sociedade branca projetou por gerações uma imagem depreciativa dos negros cuja adoção de tais ideias pelos próprios negros aconteceu sem que pudessem resistir. Essas ideias depreciativas seriam na verdade um dos maiores instrumentos de opressão e dominação, sendo necessário que os próprios negros destruam essa identidade criada falaciosa para os oprimirem. E poderíamos acrescentar que também é tarefa dos brancos a construção de uma verdadeira imagem dos negros, ou, ao que parece ser o ideal, que um dia não mais se discuta sobre a imagem de negros e brancos, mas uma imagem que seja uma e possa englobar a todos.

 

Essa construção da imagem dos negros demonstra bem a correção dos argumentos de Hegel em relação a dialética do senhor e do escravo, onde para o senhor existir, o escravo deve o reconhece-lo como seu senhor, e para o escravo existir, o senhor deve reconhece-lo como seu escravo. Portanto, criando tal relação a partir de uma construção equivocada e falaciosa das imagens de brancos e negros, constrói-se uma pseudo justificação de dominação de uns sobre os outros.

 

Com isso, após os períodos escravocratas, o racismo contemporâneo acaba por consistir em considerar que as características intelectuais e morais de um grupo seriam simplesmente consequências diretas de suas características físicas e biológicas, conforme ensina MUNANGA apud ANDRÉ (2011, p. 34).

 

Além disso, os estudos históricos e sociológicos, conforme mencionado por MOURA (Sem data, p.10), mostram que “entre diferentes grupos da espécie Homo sapiens, e as mudanças sociais e culturais no seio de diferentes grupos foram, no conjunto, independentes das modificações na sua constituição hereditária”. E assim, as transformações sociais consideráveis demonstram que de maneira alguma ocorreram em razão dos tipos raciais, mas por outras conjunturas culturais, sociológicas e antropológicas.

 

Portanto, se não existem diferenças consideráveis geneticamente entre os seres humanos é porque as diferenças foram criadas pelo homem, criadas não por um ser mais forte ou melhor, mas de forma reativa como forma de dominação dos mais fortes pelos mais débeis.

 

Quando Nietzsche afirmou a necessidade do übermensch, do além do homem, aquele que superaria o homem com seus valores morais aprisionadores, nunca afirmou que uma raça superior seria superior por características físicas específicas. O übermensch é muito mais do que simples características físicas, é a superação de valores morais que reduzem a potência de agir pelos verdadeiros valores éticos.

 

Assim, o reconhecimento tão debatido por Taylor (2000), onde mostra que essa é uma preocupação mais recente, percebe-se que tentou-se impor uma ideia universalizante, mas que não conseguiu ser aceita por uma totalidade de indivíduos, justamente porque nem todos comungavam dessa ideia. Diante disso, a aposta que a razão seria suficiente para conseguir tal homogeneização igualitária acabou por se mostrar insuficiente. Percebe-se com tranquilidade que o racismo é um valor reativo, mas também impor tal reconhecimento igualitário a todos não resolveu o problema do racismo, justamente por não ser um valor tido por universal (se todos concordassem esse post nem escrito precisaria ser).

 

Se todos os seres não são iguais, não quer dizer que mereçam tratamentos desiguais em relação as suas potencialidades, e muito menos que possuem potencialidades diferentes, onde um possuiria uma característica intelectual e moral superior a outro.

 

Assim, a ideia central desse post é pensar que os seres não são iguais em si, universalmente iguais, mas não por uma diferença étnica ou racial, mas porque cada um tem uma historicidade diferente. Não existe um ser metafisicamente melhor do que o outro, o que existe é o ser inserido no mundo, ou como ensinou Heidegger, o dasein, o ser aí. Portanto, o tratamento igualitário sempre deverá respeitar isso, tais diferenças, mas também garantir um tratamento igualitário em relação as potencialidades de cada um, respeitando as diferenças culturais e entendendo que a vida gregária é possível diante de certa tolerância mútua em relação as diferenças, mas respeitando as potencialidades.

 

Com isso, voltamos a frase contida no início do post, que afirma que o racismo não nasce com ninguém, mas sim é algo construído, adquirido culturalmente. Logo, para que o ser humano supere tais ideias inferiores e reativas, deverá entender que o racismo não se sustenta nem cientificamente e muito menos filosoficamente. Que todos os seres humanos possuem as mesmas potencialidades morais e intelectuais, e que a superação dos valores reativos, niilistas inferiores e que reduzem a potência de agir é uma tarefa individual, onde todos teriam condições de se tornar o übermensch desde que recebem as mesmas condições de fazer vir a ser suas potencialidades individuais.

 

REFERÊNCIAS

ANDRÉ, Bianka Pires. Racismo e des-afetividade no cotidiano escolar. Disponível em http://www.uenf.br/Uenf/Downloads/Agenda_Social_8802_1337693260.pdf. Acesso em 10.09.2017.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Patrópolis: Vozes, 2010.

MOURA, Clóvis. O racismo como arma ideológica de dominação. Disponível em http://centros.uepb.edu.br/ch/download/documentos/TEXTO-I-Clovis-Moura-1.pdf. Acesso em 10.09.2017.

NIETZSCHE, Friedrich W. Ecce Homo. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

RAQUELS, James. Elementos de Filosofia Moral. São Paulo: Manole, 2004.

TAYLOR, Charles. Argumentos Filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000.

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