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Estudar a si mesmo é a arte mais difícil

October 18, 2017

 

Estudar a si mesmo é a arte mais difícil.  E porque é tão difícil assim esse autoconhecimento? Antes mesmo do nascimento da filosofia, a busca pelo autoconhecimento já existia. Na entrada do oráculo de Delfos já constava a famosa frase “Conhece-te a ti mesmo”.

Milênios se passaram e a humanidade continua em sua jornada em busca do autoconhecimento.

 

A filosofia socrático-platônica partia de uma premissa de que a racionalidade deveria controlar e dominar todos os nossos instintos. Seria algo como reconhecer nossa condição de animais (racionais, mas animais), mas querer dominar essa característica, ao invés de reconhecer e entender essa característica, ou seja, reconhecer a aprender a lidar que seríamos não apenas razão, mas também instinto.

 

Com isso, a sociedade ocidental se desenvolveu com uma visão equivocada, onde deveria escamotear essa nossa característica, ao invés de buscar um equilíbrio, como preconizou Nietzsche.

 

Assim, iniciamos nossa jornada mais reflexiva da ideia de que apenas a racionalidade seria capaz de nos levar a eudaimonia, a felicidade, e que os nossos instintos deveriam ser controlados, dominados, pois eles nos levariam a ruína. Controlando-os, nos afastaríamos dos demais animais. Essa ideia ainda hoje prepondera. Ainda acreditamos que somos seres à parte da natureza, seja por uma crença de termos sido criados a imagem e semelhança de Deus ou por acreditarmos que seríamos os únicos seres racionais (ou mais racionais).

 

A atual sociedade contemporânea demonstra bem que nos perdemos ao longo dos milênios. A sociedade atual é uma sociedade nitidamente doente, tendo nas doenças psicológicas, que em sua grande maioria são verdadeiras doenças da alma, a grande epidemia do século XXI.

 

Em razão disso, a filosofia deve voltar com força para tentar contribuir na busca por respostas aos nossos “eternos” dilemas morais e existenciais. A angústia crescente, a depressão feroz, a ansiedade incontrolável, são apenas os sintomas de uma sociedade que chegou ao momento crítico, onde a reflexão filosófica parece cada dia mais distante, mas que precisa retornar velozmente.

 

 

 

A sociedade se acostumou a receber todas as respostas prontas e acabadas, seja pela religião ou pela ciência. Assim, você faz isso ou aquilo porque Deus espera tal conduta. Ou você come ou não come determinada coisa porque a “ciência” determina que tal comida faz bem ou mal para a saúde. Ninguém se pergunta o que te faz mais feliz. Você estuda alguma coisa não para ter prazer, mas para satisfazer a família, a sociedade ou mesmo simplesmente para ganhar dinheiro, pois dentro de uma sociedade consumista ao extremo como a atual, ter dinheiro para consumir é sinônimo de sucesso, de ter “vencido na vida”. Mas ninguém vai perguntar se com tudo isso você está feliz.

 

Hoje as pessoas se preocupam não apenas em consumir, mas em ostentar o que compram, o que usam e até o que comem nas redes sociais, pois para piorar, não basta mais ter, consumir, a pseudo felicidade, a felicidade artificial, determina que se deva mostrar aos demais que somos felizes por termos ou fazermos isso ou aquilo. Na verdade, a felicidade está longe de tais premissas, pois é muito mais um estado de espírito, ou um somatório de bons encontros, de encontros alegres do que simplesmente o fato de adquirir alguma coisa.

 

 

 

Chegou o momento de sairmos da infância evolutiva que a sociedade ainda se encontra. É o momento de tomarmos as rédeas da nossa vida, de sermos os verdadeiros responsáveis pelas nossas escolhas.

 

Não há mais como afirmar que se faz ou se deixa de fazer alguma coisa porque tal coisa não pode ser universalizável, como imaginou Kant. Não existe uma “receita de bolo” universal para se ter bons encontros, encontros alegres. A vida não é algo perfeito, mas sim composta de bons e maus momentos. A nossa sociedade contemporânea vem encontrando dificuldade justamente em lidar com esses maus encontros, ou como Nietzsche chama, as tragédias da vida, que são inerentes a própria vida.

 

 

 

 

 

 

Não existe uma vida perfeita idealizável, o que existe é a vida vivida, a vida do dia a dia, do ser inserido no mundo, do dasein de Heidegger.

 

Portanto, será nessa realidade existente que devemos procurar os bons encontros, mas também saber lidar com os encontros ruins. Não devemos abdicar da vida atual para esperar uma promessa de uma recompensa em uma vida metafísica futura. Não se está negando nem afirmando a crença em uma existência após o perecimento da vida física, mas simplesmente afirmando que devemos nessa vida que temos procurarmos os bons encontros, os momentos alegres, aqueles momentos que aumentam nossa potência de agir.

 

Portanto, a tarefa de encontrar os nossos momentos alegres são é tarefa individual e que não permite delegação.

 

Desde a mais tenra idade deveria ser função dos pais não apenas cobrir de presentes e mimos os filhos, mas mostrar o quanto a vida é dura, o quanto a vida é difícil, e em razão disso o quanto que a criança precisará estar apta à enfrentar essa vida. Se for feito isso, muito provavelmente a criança se desenvolverá adquirindo mecanismos de defesa, de adaptação e principalmente de ação ante os dilemas da vida, se tornando artífice da sua vida.

 

 

Para quem já é adulto, ficam os ensinamentos de Nietzsche. Em sua obra Assim falou Zaratustra, Nietzsche, pela “boca” do seu profeta Zaratustra vai afirmar que devemos realizar duas transmutações para alcançarmos o übermench, o além do homem. Primeiro, seríamos camelos, onde as corcovas que carregamos são aqueles valores morais reativos que carregamos nas costas e que não nos permite encontrar os nossos próprios valores. Vem a primeira transmutação. Nos transformamos de camelo em leão, e com a força e ferocidade do leão quebramos as corcovas aprisionadoras. Mas aí vem a necessidade da segunda transmutação. A força do leão não é a ideal para encontrarmos nossos valores, e assim, devemos passar por nova transmutação. Agora, iremos nos transformar em crianças, e com isso, nos tornamos um grande quadro em branco apto a ser preenchido, individualmente, com aqueles valores, com aqueles bons encontros capazes de nos proporcionarem um verdadeiro aumento da nossa potência de agir.

 


Essa é a receita do autoconhecimento para Nietzsche. Entender genealogicamente a origem dos valores que nos aprisionam, destruí-los, e após isso, encontrar nossos próprios valores, que nada mais é do que um verdadeiro autoconhecimento.

 

 

O professor Thiago é pós-doutor em Direitos Humanos pela Universidade Católica de Petrópolis - UCP, Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá - UNESA/RJ. Professor Adjunto do Programa de Pós Graduação em Direitos Humanos - PPGDH da UCP; Professor Adjunto do Centro Universitário La Salle do Rio de Janeiro - UNILASALLE-RJ; Professor do Master of Science in Legal Studies na American College of Brazilian Studies - AMBRA College; É também, professor convidado da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro - EMERJ.

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