Um retorno ao velho Liceu



Muitos podem pensar que a filosofia é apenas para eruditos, para acadêmicos, que a filosofia não serve para muita coisa, e, portanto, está muito longe da vida diária. Esse é um pensamento muito comum, chegando a ser corriqueiro.



Será que a filosofia não tem nada para acrescentar na vida cotidiana e está relegada à clausura da Universidade?



Se voltarmos mais de dois milênios, Aristóteles vai afirmar que uma característica da filosofia, que a difere de todos os outros ramos do conhecimento humano seria que a filosofia não possui um telos, ou seja, uma finalidade específica. Entretanto, não ter uma finalidade específica não quer dizer automaticamente que não sirva para nada... pelo contrário... será justamente por essa característica que a filosofia terá enorme aplicabilidade em toda e qualquer área do saber humano, e claro e principalmente, em nossa vida cotidiana.



Após a modernidade, a humanidade perdeu definitivamente (já vinha perdendo aos poucos) a chamada vida contemplativa, ou seja, uma vida em que, se não em sua totalidade, em boa parte dela o ser humano podia refletir e pensar sobre temas existenciais e não apenas em sua subsistência física.


Ao perder isso, que os gregos chamavam de ócio, ou seja, o tempo destinado a contemplação, o ser humano se apequenou, e ficou restrito as coisas menores, a rotina do dia a dia, e esqueceu o que realmente vale a pena ser vivido. Com o esquecimento da vida contemplativa e por conseguinte da reflexão filosófica, o ser humano começou a adoecer, em um processo que vem crescendo velozmente, e alcançando pessoas com idades cada vez menores.




São inúmeros assuntos que a filosofia poderá contribuir e muito em nossa vida diária. Hoje vivemos, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, uma verdadeira epidemia de depressão, onde o ápice da doença acaba por gerar um sentimento tão grande de infelicidade que o resultado é o suicídio. A filosofia pode e deve auxiliar no diagnóstico e principalmente no auxílio para essa verdadeira doença da alma, que vai corroendo lentamente a vida do/a portador/a, até que a vida se torna um fardo demasiadamente pesado para suportar sozinho.



Esses dilemas são pensados pela filosofia praticamente desde o seu surgimento com Tales de Mileto, onde iniciava-se a substituição do discurso mítico pelo logos, o discurso racional. São inúmeros os filósofos que se debruçaram sobre o próprio suicídio ou a forma pela qual devemos encarar as tragédias da vida, para que elas não se tornem demasiadamente grandes e pesadas para suportarmos.




Outra questão importante que a filosofia pode contribuir é com os dilemas éticos que a humanidade vem passando, desde a questão de se receber ou não imigrantes, passando pela atual crise de alteridade, pelo ressurgimento de ideologias de intolerância chegando até dilemas sobre vida e morte, mais ligados a bioética.


A filosofia também tem muito a acrescentar em relação ao atual momento belicoso por que passa o planeta, que está na iminência de uma guerra nuclear que pode afetar a todos. A filosofia política, filosofia social, dentre outros ramos da filosofia, podem contribuir para se chegar a resultados que não culminem em conflitos bélicos.




A crise atual que passa o Brasil, é uma crise política? Uma crise social? Ou uma crise econômica? Parece muito mais uma crise moral e ética... será que se estivéssemos no lugar daqueles que hoje respondem processos por desvio de dinheiro faríamos diferentes? Será nossa conduta e postura no dia a dia é condizente com o que pregamos? Será que nunca mentimos na declaração do Imposto de Renda? Será que nunca usamos uma vaga destinada a determinados grupos minoritários? Será que nunca trapaceamos de alguma forma, seja no trabalho, no mercado, na escola, na universidade, etc?



A filosofia permite que as máscaras caiam... as vezes, inclusive as nossas, pois o verdadeiro filósofo não é aquele que simplesmente conhece o pensamento dos grandes filósofos da humanidade, mas aquele que aplica a filosofia em seu dia a dia, aquele retira uma boa parte da sua vida para a vida contemplativa, ou seja, para filosofar e viver de acordo com a filosofia que acredita.



Portanto, esses foram alguns poucos exemplos de inúmeros outros que poderíamos dar sobre a aplicabilidade da filosofia em nossa vida diária, em nosso cotidiano. Basta que tenhamos a coragem de filosofar, pois filosofar é, acima de tudo, nos olharmos no espelho e enxergarmos despidos de todas as artimanhas que usamos em nosso dia a dia para encobrir nossos defeitos.


Filosofar é nos permitir olhar para dentro de nós e refletir se o que estamos vendo nos agrada realmente ou se apenas somos um produto mal acabado em uma prateleira empoeirada de um mercado chamado Sociedade.


Filosofar é buscar um autoconhecimento, para assim, mesmo que utopicamente, buscarmos a eudaimonia, uma boa vida, uma vida feliz.




O professor Thiago é pós-doutor em Direitos Humanos pela Universidade Católica de Petrópolis - UCP, Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá - UNESA/RJ. Professor Adjunto do Centro Universitário La Salle do Rio de Janeiro - UNILASALLE-RJ; Professor do Master of Science in Legal Studies na American College of Brazilian Studies - AMBRA College; É também, professor convidado da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro - EMERJ.

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